Sustentabilidade: quando é que o risco
ambiental passa a contar para o crédito?

14 de julho de 2026

Fonte: Green Savers

Fabian Fonseca, Credit Intelligence Director da Allianz Trade em Portugal participou num dos mais recentes artigos da GreenSavers. 

"Durante muitos anos, a sustentabilidade foi encarada por muitas empresas apenas como uma matéria de reputação, responsabilidade social ou cumprimento regulatório. Hoje, podemos afirmar que essa visão está ultrapassada. A sustentabilidade está cada vez mais ligada à capacidade de as empresas gerarem valor, resistirem a choques e, sobretudo, acederem a financiamento em condições competitivas.

Os sinais são claros: a mais recente análise da Allianz Trade, baseada em mais de 280 mil empresas em todo o mundo, confirma que as bases financeiras continuam a ser o principal fator de avaliação do risco de crédito. A rentabilidade, o nível de endividamento ou a dimensão de uma empresa continuam a ser determinantes para avaliar a sua capacidade de cumprir compromissos financeiros. No entanto, a sustentabilidade deixou de ser uma preocupação secundária: é agora um filtro adicional que ajuda a distinguir as empresas mais resilientes das mais vulneráveis.

O aspeto mais interessante desta análise é que o impacto da sustentabilidade não é uniforme. As empresas que apresentam desempenhos mais fracos em matéria ambiental, social ou de governação enfrentam um risco significativamente superior. Em contrapartida, a passagem de um nível baixo para um nível intermédio de desempenho sustentável pode traduzir-se numa melhoria material da qualidade de crédito. A diferença entre uma empresa boa e uma empresa excelente é menos relevante. Para simplificar: o mercado penaliza cada vez mais quem fica para trás.

Entre os vários fatores analisados, o desempenho ambiental destaca-se como o indicador mais relevante para antecipar situações de fragilidade financeira, o que não é uma surpreendente. Eventos climáticos extremos, interrupções nas cadeias de abastecimento, custos associados à transição energética ou novas exigências regulatórias têm impactos diretos nas receitas, nos custos operacionais e na capacidade de investimento das empresas.

Para um país como Portugal, esta tendência assume particular relevância. A economia portuguesa é composta maioritariamente por pequenas e médias empresas, muitas delas inseridas em cadeias de valor internacionais onde os critérios de sustentabilidade ganham cada vez mais peso. Não se trata apenas de cumprir metas ambientais: trata-se de manter e ganhar competitividade, atrair investimento e garantir acesso ao financiamento.

As instituições financeiras também enfrentam um desafio de adaptação. A sustentabilidade não deve ser encarada como um critério isolado nem substituir a análise financeira tradicional. Mas ignorar riscos ambientais ou de governação pode significar o menosprezo de riscos reais que acabam por se refletir na capacidade de uma empresa cumprir as suas obrigações.

A principal lição é simples: a sustentabilidade já não é um fator de diferenciação para um pequeno número de empresas. Está, isso sim, a tornar-se um requisito básico de resiliência económica. Num contexto de crescente volatilidade geopolítica, climática e regulatória, a questão deixou de ser quem lidera. A questão passa, cada vez mais, por identificar quem ainda não acompanhou a mudança e continua exposto a riscos que o mercado já começou a penalizar."